19/02/2018 08h59

Cursar a 1ª série antes dos 6 anos não é bom, dizem especialistas

Por Simone Burin

 

Com o início do ano letivo voltam à tona questões polêmicas, como o caso de antecipar a alfabetização das crianças inserindo-as no ensino fundamental antes do tempo. Muitos pais querem matricular seus filhos na primeira série antes de completar 6 anos de idade, muitas vezes recorrendo até mesmo à justiça para poder garantir a matrícula. Segundo o Conselho Nacional de Educação (CNE) só podem ingressar na primeira série do Ensino Fundamental crianças com 6 anos completos até o dia 31 de março do ano corrente.

Diante dessa polêmica de acelerar o processo de alfabetização e queimar etapas de desenvolvimento muitos pais erram querendo acertar, por acharem que entrando mais cedo no ensino fundamental seus filhos irão mais cedo para a faculdade. Segundo especialistas em Educação isso é um erro.

Diante desse impasse o Laguna News pesquisou algumas opiniões de especialistas em Educação Infantil sobre o tema:

Crianças de 5 anos ainda não possuem as competências necessárias para ingressar no ensino fundamental. É isso que afirmam especialistas em educação infantil. Márcia Malavasi, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que não há por que antecipar a entrada dos filhos no ensino fundamental e que o ideal é que todas as crianças frequentem a pré-escola primeiro. “Colocar uma criança tão nova dentro de uma sala de aula, nos moldes como é hoje, para ficar sentada tendo aulas expositivas, pode ser penoso para ela”, considera.

Educadores concordam que na faixa dos cinco anos a criança precisa de espaço maior para se movimentar e brincar e tem o tempo de atenção limitado. Maria Regina Maluf, pós-doutora em psicologia e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que nesta idade é muito difícil ficar sentada, por exemplo, por uma hora e meia ouvindo o professor falar. “Aos 6 e 7 anos a criança tende a estar mais madura para este estilo mais formal de ensinar, que se caracteriza o ensino fundamental.” Além disso ela também terá dificuldades com operações lógicas, exceto se tiver um desenvolvimento acima da média.

Outro ponto a ser considerado nessa equação está relacionado ao desenvolvimento neurológico da criança. Nesta idade estão sendo aprimoradas as relações sociais com o mundo. “Alfabetização exige mais do que saber letras e não se aprende só brincando, é preciso autocontrole”, afirma o professor João Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, voltado principalmente à alfabetização.

Pré-escola e estímulos – Os especialistas ressaltam, porém, que não é por considerarem precoce a entrada no ensino fundamental aos cinco anos, que as crianças não possam iniciar o processo de alfabetização nesta idade, ou antes. A boa pré-escola, alertam, é aquela que não se restringe apenas a brincadeiras.

Já a partir dos 4 anos, explica Maria Maluf, é desejável iniciar atividades que levem a criança a ter consciência da linguagem, como desenhar letras, manipular livros infantis e ouvir histórias. “Cabe à educação infantil sensibilizar ao sistema de escrita”, afirma. Desta forma, o acesso ao ensino fundamental – quando chegada a hora – se daria de forma mais plena e proveitosa.

De acordo com Arthur Fonseca Filho, membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, no Brasil o sistema de ensino sempre se baseou em idades mínimas para cada série e sempre houve uma data de corte para o ingresso no ensino, que antes era de 31 de dezembro. A diminuição dessa data tem relação com o amadurecimento das crianças, que, aos 5 anos, não estariam preparadas para a alfabetização, por exemplo.


A pedagoga Sônia de Andrade, do Centro Prospectivo de Educação e Cultura de Campinas, acredita que a medida é positiva no sentindo de estimular uma permanência mínima no ensino infantil. “É uma etapa privilegiada da educação por seu caráter lúdico, que desencadeia a aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo. Infelizmente as situações de brincadeira, cuja característica é a não-literalidade, a flexibilidade, o prazer, são abandonadas já nos primeiros anos do ensino fundamental.”, explica. Mas ela também defende que as escolas tenham a liberdade de fazer a matrícula de crianças mais novas no ensino fundamental diante de um laudo que apresente o desenvolvimento cognitivo e emocional e habilidades que tornam a criança apta a cursar o primeiro ano.


Por outro lado, diz a especialista, alguns pais de crianças nessa idade são muito ansiosos e acreditam que seus filhos apresentam uma capacidade avançada que nem sempre corresponde à realidade. Esse foi o caso da paisagista Fernanda T. que, em 2010, tentou matricular o filho de 5 anos no ensino fundamental e não conseguiu. Ela optou por mudar para outro colégio, que autorizou a matrícula. “Mas, quando fui matriculá-lo no segundo ano, em 2011, percebi que ele não estava maduro o suficiente e optamos por deixá-lo um ano a mais na primeira série. Teria sido melhor fazer um ano a mais do infantil”, diz a mãe.


Para os pais que não aceitam a retenção dos filhos, a psicopedagoga Neusa Gomes sugere procurar a avaliação de um especialista – psicopedagogo ou psicólogo – isento sobre a maturidade da criança, antes de entrar com ação na justiça. E reforça: “Um ano a mais no ensino infantil não faz mal nenhum à criança”, diz. Vale reforçar que, seja qual for o caso do seu filho, não o inclua nessa discussão. Isso pode deixá-lo ansioso e até prejudicar o comportamento no dia a dia da escola com os outros colegas. Como em tudo, o bom senso é fundamental!

Diferenças
Pré-escola
– Regulada pelo desenvolvimento da infância e promoção da sociabilidade
– Uso pleno do espaço como campo de ensino
– Realização de atividades de caráter social, afetivo emocional e cognitivo
– Deve desenvolver a linguagem e sensibilizar à escrita, mas não tem obrigação de alfabetizar

Ensino fundamental
– Maneira mais formal e sistemática de ensinar
– Espaço, em geral, mais restrito à sala de aula
– Início das lições de casa e dos compromissos
– Comprometimento com a alfabetização

Redação Laguna News

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