24/03/2017 10h24

Premiar bandidos por Pe Crispim Guimarães

Foto: Divulgação Pe Crispim Guimarães

Quais foram os dias que assistimos ou lemos jornais de circulação nacional, nos últimos 1113 dias, período de duração a operação Lava-Jato e não nos deparamos com manchetes falando deste assunto?

Muitas mazelas foram reveladas, é verdade, muitos criminosos foram “desmascarados”, dizem que muito dinheiro foi recuperado. É bom que algo diferente esteja acontecendo no Brasil, infelizmente, denominado por muitos como “país da impunidade”. Ainda deve haver coisas escabrosas escondidas em outros setores, mas também existem situações preocupantes na Lava-Jato e na justiça como um todo.

O que é delação premiada? No Brasil, na Lava-Jato especialmente, qual proporção tomou?  Delação Premiada é para a “legislação brasileira, um benefício legal concedido a um réu em uma ação penal que aceite colaborar na investigação criminal ou entregar seus companheiros”. Essa técnica de investigação ganhou notoriedade ao ser usada pelo magistrado italiano Giovanni Falcone para desmantelar a Cosa Nostra.

“Passar o Brasil a limpo” é uma expressão que ganhou notoriedade nestes mais de 1.000 dias, contudo, com o decorrer da operação alguns fatos parecem passar despercebidos e penso, vão deixar o país não tão limpo como querem fazer crer. Premiar bandidos, por exemplo, não pode ser algo bom, moralmente o processo em curso já tem uma falha grande, pior que isso, é o modo da premiação.

As penas aplicadas estão se configurando realmente em prêmios, um exemplo, nada exemplar, é a vida levada por Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro. O “cidadão” está cumprindo pena em prisão domiciliar numa mansão em Fortalçeza-CE, onde permanecerá dois anos e três meses. A casa está localizada no litoral, tem quadra poliesportiva, piscina e garagem para 10 carros. Mas seria bom saber também como anda Pedro Barusco, flagrado em Angra dos Reis, no dia 19 de julho de 2016, fumando charuto e bebendo uma cervejinha. O doleiro Alberto Youssef, que igualmente cumpriu pena em regime domiciliar – com tornozeleira eletrônica, depois de passar menos de três anos na cadeia, agora já pode até sair de casa. Sem a delação ele ficaria 100 anos na prisão.

Outro agravante é que estes delatores continuam ricos, é bom pesquisar a vida de Renato Duque, Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró, entre outros, e verificar a diferença deles em relação aos que cometem pequenos delitos; assim o crime compensa, não por acaso, Youssef é reincidente, não foi na Lava-Jato sua primeira delação. 

Não quero me posicionar judicialmente sobre a operação, tem gente mais competente que eu para fazê-lo, mas moralmente é impossível acreditar que criminosos que roubaram milhões possam desfrutar de tamanha benesse, e isso não isenta a classe política, não! O que poderia fazer o país ser passado a limpo, seria punir com rigor todos os envolvidos. Se a carruagem continuar nesse ritmo, logo muitos voltarão a praticar fraudes contra o erário público.

Se o nosso olhar não for mais apurado, vamos pensar que o Ministério Público e o Judiciário estão fazendo o melhor, não nego que já estão fazendo alguma coisa, isso é fato, todavia o melhor ainda está longe, pois enquanto bandido for premiado, pouca coisa vai mudar neste país. Alguém deve imaginar que estou contra a Lava-Jato, nada disso, estou mais que a favor, no entanto, se é para “lavar” que o faça punindo quem merece ser punido, não se admite que um pobre fique na cadeia vários anos por crimes menores e outros que surrupiaram os bens da nação vivam em mansões de praias.

Uma coisa é redução de pena para compensar a entrega de outros envolvidos nos escândalos e falcatruas, outra coisa é permitir que os bens adquiridos de forma ilícita permaneçam como patrimônio de infratores. Não seria justo o confisco dos bens dos delatores?

Não se lava e deixa limpo com tais medidas, muito menos se lava a jato tanta sujeira!

Crispim Guimarães
Pároco da Catedral de Dourados

Pe Crispim Guimarães

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