02/10/2018 10h08

Problemas vocais afetam 80% dos professores. Veja dicas

Foto: Divulgação Fonoaudiólogo Ademir Garcia Baena é especialista em voz

A voz nos representa e apresenta ao mundo, é a identidade, equivalente à "impressão digital", um segundo rosto, diz o fonoaudiólogo Ademir Garcia Baena. Mas, segundo o especialista em voz, o complexo uso e impactos ambientais podem comprometer a comunicação
 



A voz nos representa e apresenta ao mundo, é a identidade, equivalente à "impressão digital", um segundo rosto, posto que é única e, portanto singular, diz o fonoaudiólogo Ademir Garcia Baena. Mas, segundo o especialista em voz, o complexo uso e impactos ambientais podem comprometer a comunicação e passar uma imagem distorcida, em relação ao que o interlocutor deseja transmitir.

Entre os profissionais que têm a voz como instrumento de trabalho estão os educadores que lideram o ranking de doenças nas cordas vocais, como a disfonia. As queixas atingem quase 80% da categoria.

Longas jornadas de trabalho, classes lotadas, estresse e mau uso da voz detonam o problema que também como tem como agravante o pó do giz e, eventualmente, o tabagismo.

Baena alerta para sintomas como ardência, falhas na voz, cansaço vocal, queimação, sensação de corpo estranho, esforço vocal, entre outros, principalmente rouquidão, que persistente por mais de duas semanas. Nestes casos, é preciso consultar o otorrinolaringologista, o fonoaudiólogo, que são os profissionais capacitados para avaliar e tratar dos problemas vocais.

"O professor precisa se conscientizar de que seus problemas de voz podem ser relacionados ao seu trabalho, sendo um direito seu buscar orientações prévias, periódicas e possível tratamento; esta seria uma das alternativas mais interessantes e inteligentes, também ele pode fazer uso de microfone, evitando aumentar o tom de voz que agride as cordas vocais, podendo causar lesões", enfatiza Baena.

Ademir Garcia Baena é graduado em Fonoaudiologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná; especialista em Fonoaudiologia Clinica (Cefac); especialista em Voz (Cefac). Tem aperfeiçoamento em Distúrbios de Aprendizagem e Dislexia (Cefac), Aprimoramento em Eletroestimulação Aplicada à Disfonias e Disfagias. Ele fez estágio em voz pela Universidade Estadual do Arizona (Tempe/EUA), no Centro de Voz da Universidade de Medicina de Pittisburgh (EUA); Universidade British Columbia (Vancouver/Canadá).

O fonoaudiólogo clínico, que atende em Dourados, prestou serviço de Otorrinolaringologia no Hospital Santa Maria, da Faculdade de Medicina de Lisboa. É sócio-fundador da Academia Brasileira de Laringologia e Voz; também criou o Serviço de Atendimento Fonoaudiológico Público de Dourados.

Baena também delineou o Serviço de Atendimento em Fonoaudiologia em Unidade de Saúde, idealizou o Projeto Estadual de Saúde Vocal do Professor (2000), o Programa de Saúde Vocal do Professor do Município de Dourados, o Programa de Saúde Vocal "Viva Voz" do Município de Maracaju e o Programa de Saúde Vocal "Viva Voz" da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Foi professor de Voz na Mídia (Radio e TV) do Curso de Jornalismo da Unigran. Ele recebeu várias Moções Legislativas e o Titulo de Cidadão Douradense, pelos serviços prestados na área de Fonoaudiologia.

Confira a entrevista sobre saúde vocal. O mês de outubro é dedicado á prevenção e detecção precoce de câncer de mama e outros, como o de laringe que pode ocorrer em decorrência do mau uso da voz, entre outros fatores.

Maria Lucia Tolouei: Qual é o índice de educadores, entre outros profissionais que têm a voz como instrumento de trabalho, afastados por problemas vocais?

Ademir Garcia Baena: A disfonia é considerada um sintoma, e não uma doença, ou seja, é uma manifestação que compõe o quadro de distúrbio de voz. Devido à complexa discussão do termo normalidade e possíveis desvios desta, é difícil quantificar números, no entanto estudos nacionais e internacionais que investigaram por meio de questionários a prevalência de alteração vocal em professores de diferentes níveis de ensino revelou que tal prevalência é elevada, variando de 21% a 80%, no Brasil tivemos uma porcentagem que variou de 54% a 79% de queixas relacionadas à voz, o que chama a atenção e requer reflexão e medidas preventivas.

O que o senhor sugere à Saúde e Educação, como prevenção?

Importante ressaltar a criação de Programas de Saúde Vocal, através de cursos, palestras e campanhas, visando o adequado uso deste precioso Instrumento de Trabalho do professor que é a voz, é fundamental que haja maior envolvimento das instituições, como universidades, órgãos competentes do estado e municípios, para que mudanças mais robustas ocorram, assim como politicas mais efetivas, sempre visando melhor qualidade de ensino e de vida dos professores.

Problema de voz não acontece do dia para a noite. Quais são os 'vilões' e sinais de alerta?

A classe profissional dos Professores é uma das mais acometidas pelas disfonias, tendo como causas tanto a jornada de trabalho, que por vezes, esse profissional tem até 03 períodos de aulas, numero excessivo de alunos, salas mal estruturadas com acústica desfavorável, ruídos ambientais externos provindos das ruas que a cercam, dos pátios dos corredores e ou internos decorrentes da fala das crianças, que mascara a voz do professor, ambiente de trabalho desfavorável levando-o ao estresse, ar condicionado e ou ventiladores sem manutenção e barulhentos, o que o leva a fazer competição vocal, como também a falta de conhecimento de técnicas vocais apropriadas. Outras adversidades, pó de giz, fumo, álcool, poeira, fala excessiva e em forte intensidade, também podem contribuir para que surjam os problemas vocais, que na maioria das vezes, afasta o professor da sala de aula, quando não, ele se vê obrigado à fazer readaptação de função, o que pode comprometer o desenvolvimento escolar do seus alunos. Os alertas principais são os sintomas como ardência, falhas na voz, cansaço vocal, queimação, sensação de corpo estranho, esforço vocal, entre outros, principalmente rouquidão, que persistente por mais de duas semanas ou presença frequente dos sintomas acima descritos, o profissional deve investigar, consultando o médico otorrinolaringologista ou o fonoaudiólogo, que são os profissionais capacitados para avaliar e tratar dos problemas vocais.

E sobre a relação entre mau uso da voz e câncer de laringe? Tem cura?

Não há uma relação entre mau uso da voz e câncer de laringe, pois os tumores malignos da laringe têm como causas principais o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas, principalmente quando associados, cujo diagnóstico precoce permite a cura na maioria dos casos. As queixas mais comuns são voz rouca, dores para deglutir, sensação de corpo estranho na garganta, por vezes dores de ouvido entre outros sintomas. Com a progressão da doença ocorrem dificuldades para respirar.

Estresse em sala de aula pode detonar o problema?

A voz é uma das extensões mais fortes da nossa personalidade, é nossa expressão emocional, representa um importante indicador do estado afetivo na comunicação, na transmissão do saber, bem como a expressão facial e gestual que são responsáveis pela comunicação não verbal das emoções, o estresse quando desencadeado, compromete a produção da voz, a qualidade de ensino e agrava o distúrbio vocal, se já existente. Desta forma, o emocional pode provocar disfunção motora das pregas vocais gerando rouquidão e até afonia. "No geral, esta relação não é percebida. Um exemplo é o caso de pessoas que, quando irritadas, tensas, estressadas, podem vir a "perder"a voz."

Numa classe lotada, o educador é obrigado a aumentar o tom e acaba prejudicando as cordas vocais. Ele/ela têm alternativa?

O professor precisa se conscientizar de que seus problemas de voz podem ser relacionados ao seu trabalho, sendo um direito seu buscar orientações prévias, periódicas e possível tratamento, esta seria uma das alternativas mais interessantes e inteligentes, também ele pode fazer uso de microfone, evitando aumentar o tom de voz que agride as cordas vocais, podendo causar lesões.

Como o professor pode otimizar o uso da voz, para dar credibilidade à informação que tenta passar para a classe?

Conhecendo a própria voz, buscar conhecimentos, informações sobre o uso adequado da voz e, seria interessante e de bom alvitre que o professor procurasse o fonoaudiólogo para construir um padrão de comunicação que gere uma reação positiva, de acolhimento, aprovação e acima de tudo credibilidade. A voz nos permite conjugar o verbo ser.

A voz é identidade, certo? Mas nem sempre se consegue passar isso, ao falar. Como o fonoaudiólogo pode ajudar a otimizar esta ferramenta de comunicação?

A voz nos representa e nos apresenta ao mundo através do som, é uma "carteira de identidade" ou equivalente a "impressão digital", um segundo rosto, posto que é única e, portanto singular. O fonoaudiólogo pode através de determinadas práticas, permitir-lhes ação mais eficaz, maior resistência, voz melhor colocada, que tenha maior rendimento com mínimo esforço, comunicação mais rica, mais abrangente, que traduza sua personalidade, credibilidade, segurança e eficácia. Hoje, mais do que em qualquer tempo, todo projeto de desenvolvimento pessoal deve incluir a comunicação.

Considerações finais

Considerando que o distúrbio vocal relacionado ao trabalho tem grande impacto social, econômico profissional e pessoal, é fundamental que sejam priorizadas ações de prevenção, como os que já sugerimos (Programa de Saúde Vocal), que possam evitar o aparecimento destas disfunções, ações educativo-terapêuticas voltadas à adequada utilização da voz como meio de expressão, noção anatomofisiológica do aparelho fonador, cuidados vocais, aquecimento e desaquecimento vocal, através de cursos teórico-práticos e a confecção de uma cartilha contendo informações básicas sobre a saúde vocal. O desafio que agora se coloca é que os órgãos competentes coloquem em prática um Programa de Saúde Vocal, visando melhor qualidade do ensino e vida digna aos professores e à comunidade de um modo geral.

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